Inversamente proporcional ao volume de trabalho é a atualização do blog. Ou seja, quanto mais o atendimento do cartório aumenta e vem mais a Bruna me entupir de serviço, estabelecendo definitivamente o regime de semi-escravidão instaurado desde o casamento, menos tempo tenho para dedicar à Folha, para desespero e inconformismo dos fãs, que até suplicar através de recados na poeira do vidro do carro estão fazendo. Entre os indefectíveis “lave-me” e "fulano te amo”, agora tem os “queremos postagens” e o “poste ou morra”.
Somando ao excesso de trabalho, obtive junto à supracitada esposa, através de negociação intermediada pela Organização dos Maridos Explorados (OMAXO), alvará para pedalar, emitido em caráter precário e salvo melhor TPM. Daí que estou saindo de casa que nem cachorro que escapou da coleira, pedalando em desabalada carreira a fim de voltar à saudosa época em que eu percorria 80, 100 km num só dia.
Pelo exposto, peço desculpas aos leitores pelos lapsos temporais cada vez maiores sem postagens, mas é que o dever (e o esporte) me chama.
Falando em pedaladas, antes mesmo de sair da zona urbana de Caretas, tenho observado o aumento no número de queimadas.

Do jeito que a coisa anda, não é difícil Caretas vir a ser conhecida como a Terra dos Defumados. E não pense o leitor que é por causa daquelas tentações que ficam penduradas nos supermercados, empórios e botecos da vida, do time dos provolones, lombinhos, copas, salames, calabresas, enfim, tudo aquilo traduzido num lento e irresistível suicídio. Infarto embutido caramelizado com triglicérides crocantes e o puro colesterol Nestlé.
Aqui a especialidade é outra. Estamos nós, mais os lobos, as onças, tatus, pássaros e demais animais ficando totalmente defumados, tendo que respirar mato e madeira queimados, como se não bastasse o ar seco. Até parece que estamos em Pequim, de tão fumacento o ambiente. E pra Caretas virar definitivamente uma Pequim-Tupiniquim, basta aproveitar os campos repletos de bichos esturricados, fazer a colheita e começarmos a degustar os mais variados e deliciosos petiscos de espetinho de grilo, escorpião e caviar de micuim.

Vai um aí? Deixe que eu pago!
Todo ano é a mesma coisa, só que agora tá pior. Setembro nem chegou e os incendiários de plantão já trataram de botar fogo nos campos, a titulo de “renovação de pastagem”.


E aí? Vai ficar chocado comigo ou com os assassinos incendiários?
Dizem os biólogos e geólogos eco-naturebas que tal método indígena é extremamente danoso ao meio ambiente, pois provoca uma cristalização que impermeabiliza o solo e não deixa a água infiltrar e abastecer o lençol freático (não lençol frenético, como dizem alguns), além de acabar com os nutrientes do solo, dando início a um processo de desertificação. Teclei bonito, mas o trem é feio.
O fogo também consome as matas ciliares, impedidas de se recuperar, assim como não permite o aumento da vegetação no entorno das nascentes e reduzindo o volume da água.
Há casos, ainda, em que o incendiário, além de torrar sua área, queima a área do vizinho, pois não toma as devidas precauções para o fogo não ultrapassar os limites de sua propriedade.
O engraçado é que existem pessoas na cidade que torcem o nariz ao ver a serra toda iluminada pelas pousadas lá instaladas. Em que pese a especulação e expansão imobiliária totalmente descontrolada, no melhor estilo cada-um-por-si, olho e agradeço pois é a única forma mais urgente de conter as queimadas anuais, pois é óbvio que aqueles que pretendem sobreviver do turismo, ou apenas ter um refúgio natural, em tese (eu disse “em tese”) costumam (???) lutar pela preservação da natureza. Humpf (expressão de origem nórdica cujo significado aproximado é "Até parece" ou "Deus tá vendo").
Outra forma de conter as queimadas, porém de longo prazo, é a conscientização das crianças e adolescentes. Grande arma para essa conscientização é através do esporte. E eu, como entusiasta da prática do MTB (mountain-biking) nesta região, tenho certeza que se um dia existir uma secretaria de esportes nesta cidade, e houver um incentivo à prática deste esporte, com os jovens percorrendo tanto os trechos preservados quanto os degradados, a mentalidade deles mudará radicalmente, fora a melhoria no desenvolvimento físico, correndo ainda a risco de se produzirem vários campeões da modalidade.