Anéis, muitos anéis

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

XI - Não rirás das vídeo-cassetadas

Na postagem passada, gastei umas linhas narrando o que seria um épico fim da Flora Gomes.


Ocorre que, por ironia do destino, quase parto antes dela, quando sofri uma espetacular estabacada no Poço da Esmeralda na última terça-feira.


Poço da Esmeralda. Queria ver carregarem o corpo.


Aprendi tarde demais que minhas legítimas havaianas não se prestam a patinar no limo. Foi meu dia de papa, beijei o chão. E foi beijo de língua, de testa, de queixo, de nariz, chifre, tudo ao mesmo tempo. Pensei nos torcedores do Atlético, só batendo a cara pra dar galo na cabeça. A esposa teve que me segurar pelo calção, evitando que eu fizesse um mergulho compulsório no poço.


E ainda sobrou para o cotovelo, o ombro esquerdo e os dois joelhos. Cheguei a quicar. Mas graças ao meu airbag-barriga de chopp, minhas vergonhas restaram ilesas.


A barriga de chopp já foi matéria de capa em conceituada revista


Pra minha sorte, próximo do local do sinistro estava um condutor de turismo que trazia de tudo em sua mochila. O Juliano tava mais pra Magaiver. Entre um ralador de noz-moscada, uma chave de roda, uma faca ginzu, uma meia vivarina, um cabeçote de sony betamax, uma bola de críquete, um LP do Wilson Simonal e uma espada-laser recarregável, ele tinha arnica e um remédio gringo que me emprestou para passar nos locais atingidos


E ainda fazendo uso de seus conhecimentos jedai, usou da Força cruzando uma faca na minha cabeça. E não é que valeu mesmo? A arnica, conservada em álcool, utilizada conforme os ensinamentos do Mestre Yoda, não tem pra ninguém.


Já falei nesse amado blog que para se conhecer o Poço da Esmeralda não há necessidade de guia, apesar de ter falado também que sem a presença de um o turista fatalmente perderá as atrações mais escondidas.


Porém, com meu acidente, deparei-me com outro fato, que apesar de simples, é muito grave.


Em terreno de cachoeiras e poços, você não está andando no chópscents, tampouco há plaquinhas alertando onde o piso está escorregadio. Além do limo, há o perigo das pedras soltas ou pontiagudas, submersas ou não, cabeças-d'água, desmoronamentos, abelhas, beija-flores kamikazes, borboletas-vampiro.


Famigeradas plaquinhas de aviso, que você lê quando já caiu.


A função do guia não é apenas conduzir o turista até o atrativo. O guia cuida também da segurança do turista, traçando a via mais segura, alertando os mais afoitos que determinado local é perigoso, saber quando e como evacuar a área (não na área) diante de mudança súbita de clima, vetar a ida de crianças/idosos/sedentários a determinados locais, e sobretudo, carregar consigo todo material necessário aos primeiros-socorros.


Conheço mais locais em Carrancas do que muitos que aqui nasceram. Só que esse guia que me ajudou, nascido em Carrancas, conhece o município e seus atrativos naturais como a palma da mão. Assim como outros guias nascidos em Carrancas e que trabalham de forma independente, merecem a confiança do turista, e carregam a exploração consciente do turismo nas costas, literalmente.


Só que, à exceção dos profissionais como o supracitado Juliano, em geral o turismo aqui é praticado no sistema do “venha a nóis”. Que venham os turistas, deixem seus ricos dinheirinhos e vão embora. Nenhum investimento no turismo, nenhum apoio ao turista é dado pelo poder público. Não há melhor exemplo disso que a não despoluição da Cachoeira da Fumaça.


Mas há outros exemplos.


Vimos que São Pedro deve ter viajado pro Dubai e largado a torneira aberta. A chuvarada em cântaros que tem caído aumentou o volume das águas. Isso, associado ao intenso fluxo de visitantes em férias, aumentou consideravelmente a ocorrência de acidentes em cachoeiras, como o patético estabacamento deste blogueiro da testa inchada e olho roxo.


Ao menos tive mais sorte que esse infeliz.


Para atender os acidentados, no hospital temos médicos de plantão que prestam satisfatoriamente seus serviços nos finais de semanas e feriados, além dos dias “de branco”. Mas é óbvio que falta ao poder público a delicadeza de colocar um dentista de plantão. Afinal, já disponibiliza à população os que clinicam nos dias normais. Basta remanejar o horário, com os mesmos profissionais existentes.


Só que sempre tive a impressão, e já falei disso nesse amado blog, que determinados setores daqui jogam contra o turismo, principalmente o executivo municipal, diante dos secretários de turismo nomeados a cada mandato, um pior que o outro.


Pensando pequeno, como quer a administração municipal, desprezemos então os turistas com seus dentes quebrados e absessos. Eles que vão pra Itutinga, que tem dentista de plantão, ou retornem para suas cidades e busquem socorro por lá mesmo.


Por outro lado, não sei se passa pela cabeça de nosso alcaide que não raramente algum morador da cidade possa sofrer algum acidente ou problemas envolvendo dente em final de semana ou feriado.


Assim, em caso de súbito respeito pela população de Carrancas, raro em períodos não eleitorais, de bom alvitre seria a escalação de um dentista para ficar de sobreaviso (plantão) nos finais de semana e feriados.

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