Tem gente que vai pra Salvador e paga seiscentas pratas pra ficar pulando atrás de um trio-elétrico. No pacote: briga, assalto, cerveja quente, bêbado caindo em cima, calor insuportável, música enjoativa.
Mas, peraí, onde é o banheiro?
Tem gente que pinta a casa de azulão e amarelo-cheguei, deixando o frontispício parecendo um tabletão de Araldite.
Tem gente que entra numa sorveteria e pede um picolé de limão. E usando uma camisa do Botafogo.
Tem gente que gasta mil reais num celular, ou dois mil em som automotivo.
Chevetão tunado. As rodas valem mais que o carro.
Vale a pena discutir com esse povo?
Guardadas as devidas proporções, dada a maior complexidade do assunto, também não dá pra discutir com a turma apaixonada por cavalos.
A tradição indiana do casamento arranjado. Sou contra.
Mesmo porque, admito, o fato de não gostar de cavalos não significa que eu esteja com a razão, além do que o problema não é o animal em si, mas do enfadonho ato de andar a cavalo ou assistir a um peão boióla (redundância) tentar se equilibrar em cima de um.
Entretanto, turisticamente falando, as cavalgadas podem vir a ser uma boa forma de atrair turistas para cá, principalmente os da região.
Neste final de semana que passou, Carrancas foi ponto final de uma cavalgada que partiu da Fazenda Traituba. Aproximadamente 250 pessoas, entre cavaleiros e seus respectivos cônjuges e filhos foram recepcionadas no restaurante da Toca.
Muito comum ouvir falar bem de jipeiros e trekkers, e mal das cavalgadas.
Mas vi que não se pode generalizar, nem para o bem, nem para o mal.
Em minhas pedaladas, tenho visto muita destruição causada por jipeiros e motoqueiros que insistem em abrir suas próprias vias, subindo em pedras, esmagando mudas de árvores e arbustos, demolindo tocas de animais, criando valas e erosões.
O “Brasileirão de Trekking” do ano passado dispensa comentários. Só pra relembrar, usaram como trilha a água que chega às nossas torneiras, a mesma que bebemos e lavamos verduras e legumes.
Em contrapartida, fortíssimo argumento eriçado pelos críticos cavalares é a malfadada “Festa do Cavalo”, que anualmente ocorre em Carrancas e que não traz nada de bom pra cá, além de despender verba pública, que subsidia um tosco e desorganizado desfile de embriagados montados em farta distribuição de fezes e urina de cavalo pelas ruas da cidade, além dos revoltantes maus-tratos envolvendo animais.
Lado outro, tenho observado que algumas cavalgadas têm atraído pessoal de nível diferenciado, muito interessante para o desenvolvimento do turismo local. Não os pinguços e baderneiros do festão eqüino. Coincidência ou não, todas as cavalgadas de sucesso envolvem os proprietários da Toca.
Com isso cheguei à conclusão que as diversas atividades com potencial para atrair turistas, se organizadas por gente que entende do tema do evento, não importa qual seja, cavalgada, trekking, baile funk (ou fuck, para os íntimos), são válidas.
A cavalgada da Toca foi a única atividade que trouxe turistas em janeiro. Mais uma vez, como é de praxe, foi a iniciativa privada que se organizou, restando o poder público totalmente fora.
É fato, também, que o turismo de Carrancas está totalmente entregue às condições meteorológicas.
Turistas, aqui, são feitos de açúcar. Se chove, vão embora ou simplesmente não vêm. Se faz Sol, ói eles aí de novo, gente.
Só o paulistano que sai de Sampa com chuva ou sol. Também, naquele inferno...
No início do ano, que choveu aos borbotões, a falta de atividades extra-cachoeiras disponíveis aos turistas deixou muitos leitos vazios na rede pousadeira da cidade.
Mas no meu singelo entendimento, é justamente para isso que existe secretaria de turismo. Pra botar a cabeça pra funcionar e arrumar formas de atrair turistas que não seja apenas cachoeiras.
Pra inventar coisas do tipo concurso de luzinhas de natal e apresentação de coral, basta uma sessão de brainstorm em qualquer turma da segunda série do ensino fundamental.
Esses é que deveriam secretariar o turismo de Carrancas. Melhores e mais barato.
Tomem por exemplo São Thomé das Letras. Lá a prefeitura está investindo cada vez mais em eventos capazes de atrair turistas.
Na semana que passou, ocorreu lá o 1º Festival de Arte e Cultura, com a realização de oficinas de origami, malabarismo, grafite, apresentações de teatro, mágicas e shows musicais. Além de tudo, conseguiram unir turistas com a população, já que a molecada local está de férias.
Ah, não vamos ser tão injustos assim. A gurizada carente daqui, também de férias, está fazendo vários cursos intensivo nas ruas, dentre eles iniciação sexual precoce, degustação de pinga regional e também artesanato com papel: Aprendem rapidinho como fazer o próprio cigarro de maconha.
Nas localidades onde o poder público visa o desenvolvimento social e econômico da população, o novo secretariado é anunciado em alto e bom som, com pompa e festividade. Anjos tocam suas trombetas celestiais. Sinos repicam, pássaros cantam, velhinhos gritam truco, crianças sorriem. Renovam-se as esperanças de melhoria.
Aqui não, o (a) secretário (a) de turismo, juntamente com o restante do secretariado, não foi anunciado oficialmente, aos quatro cantos. É tudo na base do boca-a-boca, da fofoquinha.
Um agente-secreto foi destacado pela Folha pra saber do secretariado
Resta saber se por vergonha ou simplesmente acabou a pilha do megafone.







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